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1088 days ago
Não sabe onde começou. Sabe que súbito de algum ponto de si mesma, de sua trajetória de vida, houve a destruição – com os respectivos entulhos, de cuja poeira renasceu, ou nasceu talvez, ora como pássaro, ora como fogo, ora como mulher – e todo o tempo em que estivera vagueando em sua busca imediata a quem nem prazer poderia chamar, longe disso, apareceram novos tijolos e a idéia de uma nova casa, construída não mais do conceito de conforto mas da perda, da resignação que se dá ao sacrifício, das ruas em que andou e das casas em que entrou para a cuidar, como essa, cuja organização é obra sua – o brilho da mesa de café na cozinha, um espelho em forma de L, os armários luzentes que guardam irrepreensíveis louças e talheres por meios dos quais também, pensa ao abrir um closet ali mesmo na cozinha e, com grandes olhos atentos, escutar as recomendações da senhora Martha, chegando a sorrir, por meios dos quais se deu a expurgação. Não sabe mais quem foi um dia, como um rosto se esquece ao deixar o espelho – e seu ego foi uma casa com paredes espelhadas –, não sabe mais, exceto por essas eventuais e inócuas referências que a perseguem – o primeiro amor; o beijo inesquecível; esse homem, o filho, a filha (que é sobrinha) – um último sinal abafado de que o que não foi destruído pelas tormentas é forte o bastante para servir de apoio no tempo que restar entre a agonia e o gozo.

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